|
É necessário combinar vitalidade com emoções leves
Muitos são aqueles com quem já me cruzei que começam por perguntar se o yôga serve o seu objectivo de saber “como relaxar”. Invariavelmente tenho que dizer que não, pois a resposta afirmativa remeteria para uma motivação que ficaria muito aquém da proposta do yôga.
Claro que o praticante acaba por concluir que a capacidade de descontrair se torna evidente e importante na sua vivência pessoal. No entanto, isso acontece no âmbito da acção das oito partes que a prática completa inclui.
Será mais correcto dizer que o yôga nos vitaliza e permite ganhar um nível de consciência do qual derivam muitas consequências interessantes. Uma delas é a característica de se preservar melhor a si mesmo. Eliminar tensões onde elas são desnecessárias ou improdutivas é um exemplo.
Mas destacaria como ainda mais importante a tendência de, fruto da vitalização geral e da consciência mais apurada, acedermos a um patamar de inteligência emocional muito mais produtivo. Conseguimos estancar os pontos de drenagem energética que usualmente resultam de medos, preocupações e ansiedades, substituindo pensamentos circulares carburados com um mau clima emocional pela tendência para uma mentalidade de abundância, alegria natural e espírito de realização.
É evidente que uma pessoa que alimenta estados emocionais vibrantes e leves terá tendência natural a saber como relaxar. E note-se que essa tendência dependerá cada vez menos das vicissitudes da vida, já que até um problema ou desafio constitui oportunidade para reforçar emoções pesadas ou leves. É sempre uma escolha nossa considerar que um problema constitui razão para nos perturbarmos, ou inversamente, para abrirmos o peito com confiança e obstinação.
Pode então dizer-se que ler sobre inteligência emocional pode ser muito interessante, mas carece sempre de uma abordagem prática à nossa experiência diária de contacto com os testes a essa mesma inteligência.
Dizer que se pretende ser mais terno para depois entrar em tensão perante alguém que testa a nossa capacidade de alimentar ternura é passível de ser interpretado em duas vertentes: a que considera ser necessário evitar o teste para ter qualidade de vida, e a que aproveita o teste para reforçar a capacidade de manifestar ternura. Na sua experiência, qual lhe parece a via mais expectável e produtiva?
Será então de esperar que uma pessoa que alimente estados de tensão continuada perante tudo o que se desenrola na sua vida tenha dificuldade em descansar. E não me refiro só a saber se dorme bem ou não. Refiro-me a saber descansar ao longo do dia.
É importante que nos conheçamos a nós mesmos o suficiente para saber parar quando tudo nos empurra na direcção de uma espiral viciante de rendimentos decrescentes, confrontos, stress e prejuízos multiplicados.
A maior parte dos maus momentos que vivemos interiormente, e com os outros, derivam de um desligar subtil do ponto de bem-estar e conexão à consciência. O ego passa a vibrar intensamente para distorcer tudo e convencer-nos que o mundo está de “facto” a conspirar contra nós. Que temos razão para franzir o sobrolho, ter comportamentos disfuncionais e espalhar toxicidade por todo o lado.
O resultado é, horas ou dias depois, haver questionamento sobre a validade da nossa visão. Parece que se dissolve a legitimidade que foi sentida no auge da intoxicação de ego que alimentámos, para sobrar apenas a necessidade de amenizar as consequências que produzimos.
Podemos então concluir quão importante é promover o nosso descanso sem desculpas ou submissão a pressões externas. Ou como é decisivo e inegociável gerir o dia para manter a ligação a um contentamento estrutural iluminado por uma consciência acesa.
Desejo que o consiga fazer, pois o seu sucesso individual será sempre o sucesso de todos nós...
FL_Jan2012
|